POV Mellanie
Acordei assustada depois de um longo tempo
inconsciente. Minha cabeça doía e meu corpo tremia de frio, apesar dos vários
cobertores sobre mi e de uma lareira emanando calor. Abri os olhos lentamente,
tentando descobrir onde eu estava, mas meu olhar não focalizava. Tentei me
sentar, mas minha cabeça girava. Ignorei a tontura e girei o corpo, tentando
levantar, mas meu equilíbrio estava prejudicado e fui ao chão, me agarrando na
primeira coisa que vi; um braço.
O dono dele me colocou gentilmente de volta no
sofá-cama:
-Pronto, assim está melhor. – murmurou ele,
ajeitando meu travesseiro e as cobertas. – Não está forte ainda, Mellanie.
Passou por muita coisa nesses últimos dias, não foi? Agora descanse um pouco.
Eu estou cuidando de você.
-Quem... Quem é você? – Sussurei com a voz rouca,
tentando enxergar.
- Meu nome é Charles – disse ele, quando
finalmente consegui vê-lo. Seus olhos foram a primeira coisa que vi, de um
castanho quente, acolhedor e logo percebi porque. Seu cabelo escuro e longo
caía sobre seu rosto, encobrindo boa parte dele. O resto de sua face estava
coberto por uma barba curta, porém emaranhada, dando-lhe uma impressão de
desleixo. Mas havia algo em seus olhos ou no tom de sua voz que me acalmou
instantaneamente.
- Eu sou professor, mas no inverno, venho para cá,
impedir que jovens inconsequentes morram congelados no frio mortal da montanha,
como meu pai fazia. – disse ele, sorrindo tristemente.
Concordei com a cabeça, gemendo com a pontada de
dor que este gesto me causava.
- Há quanto tempo eu estou aqui? – Perguntei,
observando a fraca luminosidade que entrava pela janela.
- Uns 3 dias – murmurou ele, fazendo as contas –
Dois e meio, na verdade.
Encarei o teto de madeira, pensativamente.
- Como você se sente? – perguntou, preocupado.
Meditei na pergunta um momento e respondi, hesitantemente:
- Minha cabeça está doendo... e... eu acho que
estou com febre... – ele assentiu, colocando delicadamente a mão em minha testa
e franzindo o cenho, preocupado.
- Você deve estar com fome – disse ele,
levantando-se – Não comeu nada desde que chegou! Vou esquentar algo. Não pode
ficar de barriga vazia.
Assenti e sorri, comparando minha antiga vida a
essa nova, que mesmo com a dor, era incomparavelmente nelhor que a outra.
Ele pegou uma panela, colocou-a no fogão e
sentou-se numa cadeira da cozinha, observando-me. Após um longo minuto de
silêncio constrangedor, ele olhou para a lareira e comentou, sorrindo
levemente.
-Então, você é uma escritora?
Levantei a cabeça assustada, imaginando meu
caderno verde jogado entre as chamas, usado como lenha. Mas ele estava aberto
sobre um banquinho próximo à lareira.
Deitei-me novamente, relaxando um pouco.
- Você leu aquilo? – perguntei com uma careta.
Ele balançou negativamente a cabeça, com um brilho
curioso no olhar.
-As páginas estavam molhadas, as palavras sumiram.
Coloquei-o lá esperando que secasse, mas acho que não vai adiantar... –
concordei, respirando aliviada – O que havia lá? Alguma história de romance ou
algo assim?
Suspirei tristemente, sentindo meus olhos molhados
de lágrimas apenas pela mera lembrança daqueles escritos e murmurei:
- É só a causa de todos os meus problemas.
Ele não entendeu, mas não insistiu no assunto e
levantou-se, mexendo lentamente o conteúdo da panela.
-Espero que você goste de sopa – disse ele, rindo
quando fiz uma careta de nojo – É só o que temos por aqui... Não se preocupe.
Eu cozinho bem!
Sorri levemente com sua risada me contagiando e
até me propus a experimentar a sopa, em parte para agradá-lo, mas também por eu
estar com muita fome.
Ele deixou o prato cheio sobre a mesa e veio me
ajudar a sentar, afofando as almofadas. Puxou uma cadeira e sentou-se ao meu
lado, com o prato no colo. Pegou uma colherada de sopa, soprando-a delicadamente.
Tentei pegá-la, mas ele desviou, colocando-a diretamente em minha boca.
Arregalei ligeiramente os olhos, surpresa por seu ato e pelo gosto da sopa
estar bom.
Ele sorriu e perguntou:
- E então? Está comestível?
Sorri fracamente e repliquei:
-Com a fome que eu estou, até uma pedra seria
comestível... E estaria deliciosa!
Ele riu, mas parou assustado quando minha mão
começou a tremer incontrolavelmente. Segurou-a com força, tentando esquentá-la,
mas ela continuava fria como gelo. Ele suspirou e perguntou, tristemente:
-Por que, Mellanie? Por que jogar sua vida pelos
ares desse jeito?
Encarei surpresa seus carinhosos olhos castanhos,
balbuciando:
-Eu... Não sei bem... Não me lembro... Não fui eu.
- Então quem? – gritou ele, me interrompendo e me
assustando com o desespero em sua voz. – Alguém trouxe você aqui e te deixou
pra morrer? Eu tentei Mellanie. Quis muito acreditar nisso, mas não! Tudo
aponta para o contrário! Por que desistir de tudo desse jeito? – Em seus olhos,
odespero mostrava o medo de que eu tivesse me perdido, talvez para sempre.
-Porque nada mais valia a pena! –Gritei, pondo pra
fora toda a dor e a melancolia que eu carregava como preciosidades dentro de
mim. – Nada mais fazia sentido! Nada me fazia feliz e tudo o que eu tinha eram
mentiras!!Minha família sempre foi uma mentira, as pessoas ao meu redor eram mentiras e as únicas reais eu
fiz questão de transformá-las em mentiras também! – Eu chorava convulsivamente,
tornando difícil a comunicação, mas agora que eu tinha começado e que
finalmente alguém se importava com o que eu dizia, eu iria até o fim. – E então,
quando tudo parecia horrível o suficiente, “ela” chegou e destruiu o que me
restava de dignidade. Eu admito! Admito que a acolhi e a ouvi como se ela fosse
minha única amiga, mas foi o que achei que ela era. Achava que me queria bem,
que iria me ajudar e que tudo finalmente ia finalmente ficar bem...
- Shh... Mel... Calma. Está tudo bem agora.
Eu estou aqui, cuidando de você. Respira fundo. Isso... Devagar. Desculpe-me. Eu
não devia ter gritado daquele jeito. Acalme-se. Tudo vai ficar bem agora. – Ele
sussurrava delicadamente, acariciando meu cabelo e me surpreendi como, mesmo à
beira da morte, as mentiras ainda eram minha vida. Respirei profundamente, me
enchendo de coragem para sussurrar, já sentindo a partida:
-Não, Charles. Já é tarde. Agora é hora de arcar
com as consequências. Agora eu vejo... Aní me deu a faca, mas fui eu que
afundei-a em meu peito. Chega de mentiras! Assumo sem nenhum orgulho que me
matei. E com isso, destruí a chance de conhecer o melhor amigo do mundo. Meu
anjo! Meu doce anjo! Mesmo se tivesse toda a eternidade, como poderia retribuir
tudo o que fez por mim, em tão pouco tempo?
Ele abaixou a cabeça, tentando conter as lágrimas.
Respirou profundamente e me olhou fundo nos olhos, me passando uma paz e uma
tranquilidade que tornaram aquele momento muito mais fácil.
- Nós TEMOS a eternidade, meu amor! Estarei sempre
ao teu lado. SEMPRE! Basta pensar em mim, e lá estarei.
- Charles...? – Chamei, com a voz cada vez mais
fraca.
- Sim, querida? – respondeu-me, docemente, e por
um momento pude acreditar no que ele dizia, e me ver junto dele em um paraíso
para sempre. E sorri, mantendo essa imagem na minha mente, querendo que este
fosse meu último pensamento e ele fosse minha última visão.
-Tenho que ir – murmurei, com as lágrimas
escorrendo pela perda do bem mais precioso que eu acabara de ganhar. Lágrimas
escorriam também pela face dela, mas ele sorriu, sussurrando:
-Vá em paz, meu anjo.Nos encontraremos logo. Vá em
paz!
Eu sorri, fracamente, e fiz o que ele me pedia...