domingo, 27 de maio de 2012

Mellanie Klark - (Parte III)


POV Mellanie
Acordei assustada depois de um longo tempo inconsciente. Minha cabeça doía e meu corpo tremia de frio, apesar dos vários cobertores sobre mi e de uma lareira emanando calor. Abri os olhos lentamente, tentando descobrir onde eu estava, mas meu olhar não focalizava. Tentei me sentar, mas minha cabeça girava. Ignorei a tontura e girei o corpo, tentando levantar, mas meu equilíbrio estava prejudicado e fui ao chão, me agarrando na primeira coisa que vi; um braço.
O dono dele me colocou gentilmente de volta no sofá-cama:
-Pronto, assim está melhor. – murmurou ele, ajeitando meu travesseiro e as cobertas. – Não está forte ainda, Mellanie. Passou por muita coisa nesses últimos dias, não foi? Agora descanse um pouco. Eu estou cuidando de você.
-Quem... Quem é você? – Sussurei com a voz rouca, tentando enxergar.
- Meu nome é Charles – disse ele, quando finalmente consegui vê-lo. Seus olhos foram a primeira coisa que vi, de um castanho quente, acolhedor e logo percebi porque. Seu cabelo escuro e longo caía sobre seu rosto, encobrindo boa parte dele. O resto de sua face estava coberto por uma barba curta, porém emaranhada, dando-lhe uma impressão de desleixo. Mas havia algo em seus olhos ou no tom de sua voz que me acalmou instantaneamente.
- Eu sou professor, mas no inverno, venho para cá, impedir que jovens inconsequentes morram congelados no frio mortal da montanha, como meu pai fazia. – disse ele, sorrindo tristemente.
Concordei com a cabeça, gemendo com a pontada de dor que este gesto me causava.
- Há quanto tempo eu estou aqui? – Perguntei, observando a fraca luminosidade que entrava pela janela.
- Uns 3 dias – murmurou ele, fazendo as contas – Dois e meio, na verdade.
Encarei o teto de madeira, pensativamente.
- Como você se sente? – perguntou, preocupado.
Meditei na pergunta um momento e respondi, hesitantemente:
- Minha cabeça está doendo... e... eu acho que estou com febre... – ele assentiu, colocando delicadamente a mão em minha testa e franzindo o cenho, preocupado.
- Você deve estar com fome – disse ele, levantando-se – Não comeu nada desde que chegou! Vou esquentar algo. Não pode ficar de barriga vazia.
Assenti e sorri, comparando minha antiga vida a essa nova, que mesmo com a dor, era incomparavelmente nelhor que a outra.
Ele pegou uma panela, colocou-a no fogão e sentou-se numa cadeira da cozinha, observando-me. Após um longo minuto de silêncio constrangedor, ele olhou para a lareira e comentou, sorrindo levemente.
-Então, você é uma escritora?
Levantei a cabeça assustada, imaginando meu caderno verde jogado entre as chamas, usado como lenha. Mas ele estava aberto sobre um banquinho próximo à lareira.
Deitei-me novamente, relaxando um pouco.
- Você leu aquilo? – perguntei com uma careta.
Ele balançou negativamente a cabeça, com um brilho curioso no olhar.
-As páginas estavam molhadas, as palavras sumiram. Coloquei-o lá esperando que secasse, mas acho que não vai adiantar... – concordei, respirando aliviada – O que havia lá? Alguma história de romance ou algo assim?
Suspirei tristemente, sentindo meus olhos molhados de lágrimas apenas pela mera lembrança daqueles escritos e murmurei:
- É só a causa de todos os meus problemas.
Ele não entendeu, mas não insistiu no assunto e levantou-se, mexendo lentamente o conteúdo da panela.
-Espero que você goste de sopa – disse ele, rindo quando fiz uma careta de nojo – É só o que temos por aqui... Não se preocupe. Eu cozinho bem!
Sorri levemente com sua risada me contagiando e até me propus a experimentar a sopa, em parte para agradá-lo, mas também por eu estar com muita fome.
Ele deixou o prato cheio sobre a mesa e veio me ajudar a sentar, afofando as almofadas. Puxou uma cadeira e sentou-se ao meu lado, com o prato no colo. Pegou uma colherada de sopa, soprando-a delicadamente. Tentei pegá-la, mas ele desviou, colocando-a diretamente em minha boca. Arregalei ligeiramente os olhos, surpresa por seu ato e pelo gosto da sopa estar bom.
Ele sorriu e perguntou:
- E então? Está comestível?
Sorri fracamente e repliquei:
-Com a fome que eu estou, até uma pedra seria comestível... E estaria deliciosa!
Ele riu, mas parou assustado quando minha mão começou a tremer incontrolavelmente. Segurou-a com força, tentando esquentá-la, mas ela continuava fria como gelo. Ele suspirou e perguntou, tristemente:
-Por que, Mellanie? Por que jogar sua vida pelos ares desse jeito?
Encarei surpresa seus carinhosos olhos castanhos, balbuciando:
-Eu... Não sei bem... Não me lembro... Não fui eu.
- Então quem? – gritou ele, me interrompendo e me assustando com o desespero em sua voz. – Alguém trouxe você aqui e te deixou pra morrer? Eu tentei Mellanie. Quis muito acreditar nisso, mas não! Tudo aponta para o contrário! Por que desistir de tudo desse jeito? – Em seus olhos, odespero mostrava o medo de que eu tivesse me perdido, talvez para sempre.
-Porque nada mais valia a pena! –Gritei, pondo pra fora toda a dor e a melancolia que eu carregava como preciosidades dentro de mim. – Nada mais fazia sentido! Nada me fazia feliz e tudo o que eu tinha eram mentiras!!Minha família sempre foi uma mentira, as pessoas ao  meu redor eram mentiras e as únicas reais eu fiz questão de transformá-las em mentiras também! – Eu chorava convulsivamente, tornando difícil a comunicação, mas agora que eu tinha começado e que finalmente alguém se importava com o que eu dizia, eu iria até o fim. – E então, quando tudo parecia horrível o suficiente, “ela” chegou e destruiu o que me restava de dignidade. Eu admito! Admito que a acolhi e a ouvi como se ela fosse minha única amiga, mas foi o que achei que ela era. Achava que me queria bem, que iria me ajudar e que tudo finalmente ia finalmente ficar bem...
- Shh... Mel... Calma. Está tudo bem agora. Eu estou aqui, cuidando de você. Respira fundo. Isso... Devagar. Desculpe-me. Eu não devia ter gritado daquele jeito. Acalme-se. Tudo vai ficar bem agora. – Ele sussurrava delicadamente, acariciando meu cabelo e me surpreendi como, mesmo à beira da morte, as mentiras ainda eram minha vida. Respirei profundamente, me enchendo de coragem para sussurrar, já sentindo a partida:
-Não, Charles. Já é tarde. Agora é hora de arcar com as consequências. Agora eu vejo... Aní me deu a faca, mas fui eu que afundei-a em meu peito. Chega de mentiras! Assumo sem nenhum orgulho que me matei. E com isso, destruí a chance de conhecer o melhor amigo do mundo. Meu anjo! Meu doce anjo! Mesmo se tivesse toda a eternidade, como poderia retribuir tudo o que fez por mim, em tão pouco tempo?
Ele abaixou a cabeça, tentando conter as lágrimas. Respirou profundamente e me olhou fundo nos olhos, me passando uma paz e uma tranquilidade que tornaram aquele momento muito mais fácil.
- Nós TEMOS a eternidade, meu amor! Estarei sempre ao teu lado. SEMPRE! Basta pensar em mim, e lá estarei.
- Charles...? – Chamei, com a voz cada vez mais fraca.
- Sim, querida? – respondeu-me, docemente, e por um momento pude acreditar no que ele dizia, e me ver junto dele em um paraíso para sempre. E sorri, mantendo essa imagem na minha mente, querendo que este fosse meu último pensamento e ele fosse minha última visão.
-Tenho que ir – murmurei, com as lágrimas escorrendo pela perda do bem mais precioso que eu acabara de ganhar. Lágrimas escorriam também pela face dela, mas ele sorriu, sussurrando:
-Vá em paz, meu anjo.Nos encontraremos logo. Vá em paz!
Eu sorri, fracamente, e fiz o que  ele me pedia...