sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Artistas

Uma jovem de longos cabelos castanhos estava sentada em frente a uma tela em branco. Ao seu redor, os materiais que a fariam preencher a tela se encontravam espalhados e intocados. Começara cedo a pintar; por volta dos 15 anos já surgiam países inteiros por suas mãos e mentes. Mas agora, quase 6 anos depois, as imagens surgiam raramente, pálidas, sem muito significado e com pouca emoção. Isso a frustrava. Pintar fora seu rumo por muito tempo. Foi o que a manteve viva quando tudo lhe dizia para ir. O que a transformou na mulher que agora era. E agora, após passar a manhã se preparando para isso, encarava a tela irritada. Nada havia lá. Nenhuma possibilidade! Nenhuma cor! Nada. Tentou começar. Quem sabe depois da primeira pincelada, as seguintes se apresentassem.
Pegou hesitantemente o pincel, seu fiel companheiro por tantos anos e molhou-o na tinta azul. Seus dedos tremiam e ela manteve-o na frente da tela, como se tivesse medo de fazer algo permanente. Finalmente, arriscou a primeira pincelada. Saiu mais como um rabisco, devido ao tremor resultado de um nervosismo inesperado. Aumentou-a, transformando um simples risco numa grande linha, dividindo a tela no meio, criando um longo horizonte.
Outras pessoas poderia achar que aquilo não faria muita diferença, mas ela não. Naquele aparentemente simples risco, ela viu.
Viu o céu azul brilhante com algumas nuvens fofas e arroxeadas. O Sol, grande, laranja e brilhante, descia lentamente, se pondo atrás de grandes montanhas esverdeadas. No primeiro plano, erguia-se majestoso castelo, com os muros de pedra cintilando à luz do crepúsculo. Um rio sinuoso corria, passando ao lado do castelo, criando um pequeno lago particular. À esquerda, erguia-se uma imponente floresta, com densas árvores encobrindo seus segredos. Acima do castelo, várias bandeiras de diferentes cores bordadas em ouro erguiam-se, ostentando seus diferentes estandartes dos que lá viviam.
Ela sorriu, dissipando a imagem sem deixa-la ir e encarou a tela semi-branca satisfeita. Misturava as cores empolgada, vibrando de felicidade ao ver seu novo mundo renascendo diante de seus olhos. Era pra isso que ela vivia. Para isso que ela estava ali. Para dar vida a novos mundos. Para trazer a Terra fragmentos do céu.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Maíse - (parte I)

Entrei sorrateiramente em seu quarto, esperando encontrá-la já se recolhendo ou mesmo na inconsciencia do sono, mas Estela estava sentada frente à penteadeira, arrumando-se com esmero. Viu-me pelo espelho e abafou um grito, assustada.
-Por Deus Maíse! Que susto me pregaste! Quereis mandar-me para a cova dias antes de meu casamento?
Reprimi um riso, encantada com sua dramaticidade.
-Perdoai-me, minha irmã. Precisava lhe falar e acreditei que o momento seria oportuno. Mas ao que me parece, estais de saída. Vais encontrá-lo?
Permaneceu em silêncio por alguns instantes, penteando seus longos cabelos caramelos. Por fim, virou-se, sorrindo sonhadoramente:
-Não há com esconder-vos nada, não é? Sim, vou encontrá-lo. Desde que o Rei - abençoada seja sua alma nobre - prometeu-lhe minha mão, Lorde Miles convida-me toda noite para longos passeios à luz do luar. Que homem, minha irmã. Que homem! Nem se me casasse com o próprio rei seria tão feliz quanto serei ao lado de seu sobrinho.
-De fato, tens muita sorte, Estela. Não só se casará com o sobrinho do rei, com a união abençoada pelo próprio monarca, como pareceis feliz ao lado dele. Mas precisas manter os olhos abertos e as janelas fechadas, pois o Lorde tem a fama de manter várias amantes.
Ela soltou um risinho malandro e confessou, maliciosamente:
-Podeis crer que saberei satisfazê-lo. Ele já se mostra bem satisfeito com meus caprichos.
Encarei-a pasma e sussurei:
-Entregou-se a ele antes do casamento?
Ela riu e comentou:
-Ah, minha irmã.Tua inocência me comove. És muito nova ainda, mas se pudesseis vê-lo, certamente entenderias. Não há como resistir à seu charme. Mas isso não vem ao caso. Disse que precisavas falar-me. Pois diga. O que era tão urgente a ponto de precisar ser dito na calada da noite?
Suspirei e sentei-me em sua cama, exausta de repente.
-Margareth disse-me que ouviu o conde a negociar meu casamento - sussurei, contendo as lágrimas.
Estela sorriu, exultante:
-Mas esta é um notícia explendida! Papai negociando teu casamento! Isso é ótimo! E... - ela parou, observando-me por um instante -Apesar disso, não estais feliz. O que lhe aflige?
-O noivo... - mururei.
Ela assentiu com um careta.
-Pobre?
Ri, debochada.
-Por certo que não. É um duque.
Ela olhou-me, surpreendida.
-Isso é ótimo! O que é, então? Desagrada-lhe sua aparencia?
-Não tenho como responder-lhe. Nunca o vi. Mas dizem que é belo.
-Por Deus, minha irmã! És muito exigente! Quem é teu pretendente, afinal? Talvez eu o conheça.
-Duque Jasper de Fieldland. - Respondi num murmurio.
Ela observou-me, pasma.
-O pobre artista que foi à guerra e voltou como general?
-E ganhou um ducado do Rei por ter reconquistado a capital e salvado o príncipe. - completei, relutante.
-Mas ele é um ótimo partido! Não deverias queixar-vos, Maíse!
-Bem o sei. Mas Estela! Ele tem idade para ser meu pai! E todo o seu drama e romantismo de artista que me encantariam, certamente morreram em seu coração após a guerra. Não suportaria conviver com um marido frio e arrogante.
-Oh, minha irmã! - sussurou ela, vindo me abraçar quando as primeiras lágrimas escorreram por minha face. - Não tenha medo. Acaso não confias em nosso pai? Ele jamais casaria-te com quem não a merecesse. E não tens como saber se o duque é mesmo como supões. Como disse, nem o conheces ainda! E quem sabe não será tu quem reavivará a alma artista de Lorde Jasper?
-Tens razão, como sempre. - sorri, enxugando as lágrimas que teimaram em cair. Estela sorriu convencida e entregou-me um lenço. Abracei-a com força e sussurei. - Como poderei viver sem ti? Tens mesmo que ir viver na corte?
Ela desvencilhou-se de meus braços, olhando-me com ternurna.
-Ao menos por um ano ou dois, se tudo correr bem. Mas não te preocupes. Virei visitá-los com frequencia. E temos teu casamento a preparar ainda! Não te livrarás de mim tão cedo!
Rimos juntas por um momento, aproveitando os últimos dias de convivência antes do casamento de minha irmã.
Um barulho na janela fez Estela sorrir.
-É ele! - sussurou, sorridente. [...]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dúvidas, medo e alento...

Isso é o fim?
Ou apenas um novo começo?
Devemos confiar e esperar?
Ou fazer e deixar nossa marca?

Talvez, um dia, seremos apenas uma fraca memória.
Talvez possamos ser um tipo de heróis
para as futuras gerações.

E as pessoas que deixamos para trás?
Será que elas eram mesmos importantes?
Será que nos lembraremos delas daqui a um tempo?
Será que seriam elas que mudariam nossas vidas pra melhor?

Mas se fosse assim, não seria certo que nos encontraremos de novo,
para o futuro ser cumprido?

"O que está predestinado, sempre voltará para nós.
Os que amamos de verdade, nunca serão esquecidos.
Por mais que não existam mais em nossa realidade,
os laços de afeto nos manterão sempre unidos, de um jeito ou de outro.

E toda a confiança criada, todos os segredos compartilhados e as alegrias vividas, terão um novo peso. O da saudade. O da certeza de que, se for pra ser, será. De que se for forte o suficiente, perdurará pelo infinito e nos encontraremos na eternidade.

E as tristezas, as desilusões, os medos, isso tudo será passado. Apenas uma pequena mancha escura em nossa anterioridade. Não como uma coisa ruim, mas como algo inevitável que nos trouxe até aqui. E com o tempo, desaparecerá, sufocada pela alegria e fé que já nos preenchem aos poucos, criando correntes de força poderosa, minando devagar os obstáculos. Não destruindo-os, mas dando-nos forças e confiança para superá-los.

Então, um dia chegaremos lá. Aquilo que, no fundo, todos sonhamos:
A Perfeição!

Assim, poderemos olhar pelos que tanto amamos e auxiliá-los a chegar até nós. Amando e cuidando, com paciência e carinho, todos chegaremos lá!

Agora, é o momento de ir, para que possamos adquirir experiencias e sensações. Mas não se preocupem. Não estaremos longe. Além disso, o reencontro já está marcado.

Até um dia, querida. Nos encontraremos... no Paraíso!"

O Tempo...

O tempo está passando mais rápido?
Ou o medo de que tudo finde
termina por apressá-lo?


Mantendo-nos em tal contradição
que o simples fato de desejar
é como um pedir pra que nunca aconteça...