domingo, 25 de dezembro de 2011

Mellanie Klark - (parte II)

Depois de finalmente arrumar tudo, me joguei exausto na cadeira da cozinha, apoiando a cabeça com as mãos. O vento uivava lá fora, anunciando que a forte nevasca não cederia tão facilmente. Do lado de dentro, os pequenos sons proporcionavam uma agradável sonolência, que em circunstâncias normais, me arrastariam direto para a cama. Os estalidos da lareira e sua luz bruxuleante, a panela de pressão, chiando e contagiando toda a cabana com o delicioso cheiro de sopa... e Mel.
Era por ela que eu ainda estava acordado, mesmo tarde da noite. Mesmo vendo-a descansar tranquilamente, mesmo ouvindo seus suspiros que quase me enlouqueciam, eu sabia que essa situação poderia mudar completamente, de uma hora para outra. Conhecia os sintomas, sabia que não seria assim tão fácil. Fui treinado para isso. Mas diante dela, minha mente virava uma grande confusão e não conseguia pensar em nada, a não ser nela. Em seus olhos, seu cabelo, seus lábios, tão doce...
Respirei fundo e me levantei, tentando dissipar sua imagem de minha mente, tentando pensar em coisas mais lógicas e práticas. Como na comida, que antes duraria cerca de um mês, prazo previsto para a re-abertura da montanha, agora com duas pessoas duraria, em média, 15 dias. E a comunicação estava cortada, o que significava que se algo de mais grave acontecesse com ela, não haveria nada a ser feito. Olhei ao redor, procurando desesperadamente algo pra fazer e vi uma mochila vermelha encostada junto à porta, ao lado das roupas molhadas de Mel.
Não me lembrava de tê-la visto, mas na verdade, me lembrava de pouca coisa do dia de hoje, já que desde que a vi, toda a minha atenção estava voltada para ela. Peguei-a cuidadosamente e coloquei-a em cima da mesa, analisando-a. Uma parte de mim dizia que eu não deveria abri-la, que o que havia lá não me interessava ou mesmo que talvez eu pudesse não gostar do que estivesse lá. A outra, mais prática e racional (e mais lógica, certamente), dizia que qualquer informação extra seria útil para ajuda-la. Preferindo o lado prático, abri o zíper maior, esperando encontrar uma agenda, um celular, algo que me dissesse por que ela estava aqui, e se havia alguém que eu poderia avisar.
Dentro da bolsa, apenas um caderno universitário de capa verde, e uma garrafa de água pela metade. Retirei cuidadosamente o caderno, decepcionando-me imediatamente ao perceber que ele estava completamente inutilizável. Suas páginas molhadas e os escritos a lápis se tornaram ilegíveis. Revirei cuidadosamente suas folhas, tentando imaginar o que havia lá. Não parecia um caderno escolar, nem um diário ou uma agenda. Os escritos seguiam constantes, sem pausas, como... Como um livro! Levantei-me animado, lembrando-me de minha juventude, quando sonhava e escrever. Coloquei o caderno ao lado da lareira, esperando que ele secasse. Sentei-me por um momento ao lado de Mel no sofá, ajeitando delicadamente os cobertores, assegurando que ela estava quente. Ela soltou um gemido abafado, fazendo careta, tendo pesadelos. Passei a mão em sua face, tentando acalmá-la e senti sua pele quente. Era difícil saber devido à proximidade da lareira, mas eu não descartava a possibilidade de uma febre.
Voltei à mesa, abrindo o zíper menor da mochila. Lá dentro, uma sacolinha de plástico protegera um MP4 preto, com um adesivo de caveira colado atrás e uma carteira, também preta. Deixei o MP4 de lado, analisando a carteira. Dentro dela, muitas notas e 50, vários cartões e carteirinhas e algumas fotos. Puxei delicadamente seu cartão de identidade e sorri, murmurando seu nome.
-Mellanie Klark...
Seu nome fluiu fácil por meus lábios... Natural... Como se já o tivesse pronunciado várias e várias vezes, apesar de ter certeza de que nunca o havia ouvido antes. Procurei alguma outra informação, mas isso era tudo o que havia de relevante na carteira. O resto eram cartões de crédito, carteirinhas de clubes e cartões de lojas caríssimas. Apesar da clara riqueza, não conseguia imaginá-la usando aquilo tudo. Indo ao shopping gastando milhares em roupas inúteis. Era como se fizesse de tudo pra esconder sua condição financeira. Suas roupas sem marca e o caderno provavam isso. Sua família podia ser rica, mas ela não se importava com isso.
Peguei o MP4, sorrindo ao ver várias das minhas músicas preferidas na lista de mais tocadas. Recostei-me na cadeira, colocando a última música ouvida para tocar e suspirando tristemente ao perceber qual era. O violão suave e a voz rouca de Kurt Cobain contagiaram o ambiente com “Where did you sleep last night”, do Nirvana. Deixei o aparelho em cima da mesa e me deitei ao lado de Mellanie, cantando baixinho a música que expressava exatamente o que estava acontecendo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Mellanie Klark - (parte I)

A tarde já estava no fim quando ouvi latidos de um cachorro ao longe. Estranhei. Naquela região da montanha não haviam muitos visitantes, ainda mais agora que a entrada estava proibida devido à nevasca. Abri uma pequena fresta da porta da cabana que nessa época costumava chamar de “lar”. O vento frio fustigou meu rosto, deixando pequenos cristais de gelo grudados em minha barba e em meu cabelo. Fechei a porta e corri pegar os casacos térmicos e kits de primeiros socorros, guardados para alguma eventual emergência. Algo estava terrivelmente errado. Eu sentia isso.
Estava quase tudo pronto quando ouvi a porta ser arranhada. Abri-a rapidamente e, junto à soleira da porta estava um pequeno Terrier ganindo de medo e de frio. Acariciei-o e por um instante ele pareceu lutar contra o instinto de se proteger do frio. Repentinamente, como se acabasse de tomar uma decisão, levantou-se e correu na direção da trilha que levava ao topo da montanha. Fechei a porta atrás de mim e fui atrás do pequeno.

Ele corria desenfreadamente, não parando por nada, mesmo estando claramente no fim de suas forças. Depois de uma longa hora de trilha, chegamos à uma clareira pouco abaixo do topo, com os pinheiros chacoalhando perigosamente seus cristais de gelo. O Terrier parou em baixo de um deles e começou a escavar a neve, tentando desenterrar algo. Percebendo  o que acontecia, corri para ajuda-lo. Embaixo de meio metro de neve estava uma garota com cerca de 17 anos, apenas de jeans e camiseta.
Desesperado, puxei-a para o meu colo, envolvendo-a com alguns casacos extras. Ela era linda! Mesmo molhada, suja e quase congelando havia algo nela que me atraia de maneira irresistível. Apavorado, peguei seu pulso, tentando sentir seus batimentos. Eles estavam lá... fracos, porém constantes  Suspirei aliviado. Eu nem a conhecia mas percebi que não suportaria vê-la morrer. Sentia uma necessidade incontrolável de protege-la, de cuidar dela. Que meus longos 26 anos de solidão finalmente teriam fim.
Sem conter a emoção, beijei-a delicadamente na testa, esperando, com isso, trazê-la de volta à vida. De fato, seus lábios tremeram e seu coração acelerou, pouco, mas perceptivelmente. De repente, senti algo agarrando minha blusa. Afastei-me, assustado e percebi que era ela. Em seus belos olhos castanhos havia apenas o medo, de intensidade tal que beirava a loucura.
-Piedade!- sussurrou, quase histérica. – Pelo amor do Senhor, me ajude. Por favor. Eu lhe imploro! Não me deixe morrer assim! Por favor!
-Shh... Calma... Shh... Fique calma.- tranquilizei-a – Está tudo bem. Eu vou te ajudar. Você vai ficar bem. Eu prometo! Não se preocupe. A propósito, qual seu nome?
Ela me encarou por alguns instantes, como que tentando entender o que eu dizia. Depois de um tempo, murmurou:
-Mel...
E desmaiou.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Errar é um erro (?)

"E a partir de agora,
meu medo de errar é superestimado.
E errar é um erro imperdoável.


E é esse medo que nos mantém prisioneiros,
Afundando-nos em nossos próprios temores.
Cegando-nos, blindando a bela luz
que nos cerca por todos os lados.
Mantendo-nos mergulhados na escuridão
aparentemente sem  fim."