terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Jarelise pt. 2 *o*

"E mais um longo dia se findara. Ele finalmente chegava em casa após mais uma noite de trabalho. Já era tarde. Passava da meia-noite, mas era esse o horário que costumava chegar. Deixou o material em cima da mesa, cadernos, livros, cadernetas e os óculos que recentemente fora obrigado a usar. Era muito jovem ainda, mas pelas longas horas de leituras com pouca luz que a profissão lhe obrigara, a visão fora sendo desgastada e encontrava o conforto no bom e velho óculos que lhe deixava, junto com a barba crescida, com a aparência muito mais velha do que realmente era.
Suspirou, feliz por estar em casa e abriu lentamente a porta do quarto, sorrindo ao ver seu amor dormindo tranquilamente. A luz da lua entrava pelas largas portas de vidro que levavam à um quintal privativo na beira da montanha. Uma brisa suave brincava com as cortinas púrpuras, trazendo um sopro frio ao aposento. Ela tremeu ligeiramente, ele franziu o cenho e ajoelhou-se na cama, cobrindo-a. Acariciou seus belos cabelos negros, beijando-a suavemente na testa.
-Te amo muito, meu amor. – sussurou ele – Minha Eloíse.
Da profundeza de seus sonhos, ela sentiu a presença do marido e sorriu levemente. Ele riu, e dirigiu-se ao banheiro.
A água quente corria por seu corpo, relaxando cada músculo, dissipando-lhe os problemas do dia, levando pelo ralo as revoltas adolescentes que a profissão lhe levava a estar em contato. Sentindo-se relaxado novamente, fechou o chuveiro, enrolando-se na toalha fofa.
-Jared? – Ouviu o sussuro sonolento de sua esposa chamando-o. Sorriu, colocando rapidamente seu pijama de algodão. A noite estava quente, portanto, resolveu dispensar a camisa. Saiu do banheiro sorrindo, encarando os belos olhos azuis acinzentados que não cansava de olhar.
-Oi, meu amor. – murmurou ele – Me desculpe. Tentei não te acordar, mas não resisti te ver ai... tão linda.
Ela riu, espreguiçando-se.
-E como você acha que eu conseguiria dormir sem a visão do meu anjo aqui, na minha frente? Tão seduzente... – Disse ela rindo, com uma careta maliciosa e os olhos brilhando de puro amor.
Ele riu, secando os cabelos com uma toalha seca.
-Sua exagerada! Você estava dormindo profundamente quando eu cheguei!
Ela começou a protestar, mas foi acometida por um bocejo que a incriminou. Os dois riram da romântica mentira descabida da garota. Jared deitou-se na cama, passando os cabelos molhados pelo rosto da esposa, que sorriu, fingindo nojo. Ela puxou-o para si, beijando-o amorosamente nos lábios, sussurando, sorridente:
-Te amo tanto... Meu professor com síndrome de italiano.
Ele riu, beijou-a uma última vez e levantou-se lentamente.
-Vou comer algo. Esqueci meu lanchinho hoje. Tive que roubar uns salgadinhos de uns alunos.
Ela revirou os olhos, exclamando:
-Mas é um cabeça oca mesmo! E ainda rouba lanche dos alunos! Que exemplo, hein, Sr. Tielo?!
Ele abaixou os olhos, fingindo-se envergonhado e murmurou:
-Me desculpe, Sra. Tielo. Não vai acontecer novamente. Prometo!
Ela sorriu, reprimiu um bocejo e disse, carinhosamente:
-Deixei um sanduiche pra você na torradeira. E tem um pouco daquele suco de maracujá na geladeira...
-Ora, mas essa sra. Tielo é muito prestativa! – exclamou, sorridente. – Agora, vamos. Pode dormir que amanhã a professora acorda cedo que eu sei. E se ela ficar cansada e falar que foi o marido que não a deixou dormir a coisa não vai ficar boa pro meu lado!
Ela sorriu, apagando um dos abajures e, suspirando profundamente, aninhou-se novamente na cama e dormiu.
Jared comeu rapidamente o delicioso lanche da esposa. Estava exausto. Escovou os dentes, e deitou-se ao lado da mulher que tanto amava, apagando a luz e abraçando-a, sussurando:
-Obrigado, amor. Estava delicioso. Te amo, Ís. Dorme bem.
Ela beijou-o delicadamente e aninhou-se confortavelmente em seus braços.
E assim, dormiram mais uma noite o casal Tielo...
 "a

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Jarelise *---*

[...]

Respirou profundamente após alguns rápidos, porém valiosos minutos de meditação. Sorriu, sentindo-se recuperada da longa caminhada. Correu as mãos pelos longos cabelos encaracolados, prendendo-os num simples e elegante rabo de cavalo. Levantou-se lentamente, ainda meio anestesiada pelo mundo à sua frente e, juntando suas coisas, despediu-se solenemente do belo coreto.
Subiu a curta estradinha íngreme que levava da porteira à porta de sua casa, de onde pode ouvir uma animada música italiana tocando na rádio, com Jared cantando-a com sua voz grave e melodiosa. O doce aroma do molho de tomate no fogão não deixava dúvidas quanto ao cardápio do almoço.
Abriu silenciosamente a porta, segurando o riso ao ver seu amor na bancada de chapéu de chef e avental, cortando tomates, distraído. Eloíse colocou a bolsa sobre o sofá e caminhou silenciosamente até o marido. Esperou ele largar a faca e tapou-lhe os olhos, numa antiga brincadeira clichê dos dois.
-Amore mio! – Exclamou o chef, virando-se sorridente e passando as mãos pela cintura da esposa, puxando-a para si. Ela não perdeu tempo, acariciando-lhe a nuca e içando-se para beijá-lo.
-Buon giorno, anjo. – murmurou ela sorrindo. – O que temos para mangiare hoje? – Eloíse desceu a mão lentamente pelo peito do marido e esticou-se pegando uma taça de vinho na bancada e bebendo-lhe um gole.
-Maccheroni di Járed, mia bella. Má non è pronto ainda, capisce?
Eloíse encarou-o séria por um curto instante e então desatou a rir da tentativa fajuta de sotaque italiano do amado. Ele retirou a taça da mão dela e, com um sorriso que a derretia toda, pegou-a no colo enquanto ela ria e divertia-se pedindo para ele colocá-la no chão. Ele caminhou decidido até o quarto onde jogou-a carinhosamente na cama, imobilizando-a com uma das mãos e fazendo cócegas com a outra na sua garota, que meio ria, meio chorava de rir, implorando para que ele parasse. Ele só o fez quando suas barrigas já estavam doendo de tanto rir e, depois de recuperar o fôlego, beijou-a docemente nos lábios.
-Posso saber por que motivo fui assim tão covardemente agredida e tão divinamente recompensada?
Ele riu e teve que se concentrar para voltar ao personagem.
-La ragazza estava zombando de mia italianicidade e questionando il maccheroni del chef. Questo è imperdonabile! Merece o pior dos castigos... Amore! HUAHUAHUA!
Ela revirou os olhos, levantando-se.
-Certo, certo. Perdona, chef. Ma, olha, io vou tomar banho... – segurou o riso ao ver o olhar malicioso do marido – Nem pense nisso, seu italianozinho safado! Io sono una donna casada, capisce? E enquanto eu vou lá, por que não procura mio marito por ai? Ele deve ter se perdido... ou acho que superou o lance do ciúme pra deixar a esposa sozinha com um italiano tão prestativo... – disse provocante, indo para o banheiro, rindo ao ver a expressão do homem à sua frente, que franzia o cenho como que tentando se lembrar onde teria visto o Sr. Tielo.
-Io posso procurar teu marito lá pelas bandas da panela de molho. É aquele professorzão alto, bonito, inteligente, gostoso...
-Isso! Esse mesmo! – gritou Eloíse do banheiro. – Pode, por favor, trazê-lo de volta? É que eu estou com saudade, sabe?
- Non se preocupe, signora! Tuo marito estará esperando per te na mesa em 10 minutos. Per favore, non se atrase, bella.
Eloíse sorriu, amando sua vida e tudo o que fazia parte dela, especialmente aquele homem que tanto lhe amava de volta.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Soneto

E mais um dia se vem e se vai
Sob o velho amigo, Senhor Tempo.
E sobre o doce sabor do vento,
Nossa esperança, mais uma vez, caí.

E sob o véu das obscuras manhãs,
-tão obscuras como minha alma,
que em seu turbilhão nunca se acalma.-
Vivo inúmeras fantasias vãs.

De que vale, pois, tanto medo e dor
se em meu ser já pulsa um grande ardor
por não participar de tais festas?

"Oh, não, minha flor! Não tendes pressa!
Pois que se em tua doce seresta,
Nada entendes das palavras de amor?"

-Marina Brasil

domingo, 27 de maio de 2012

Mellanie Klark - (Parte III)


POV Mellanie
Acordei assustada depois de um longo tempo inconsciente. Minha cabeça doía e meu corpo tremia de frio, apesar dos vários cobertores sobre mi e de uma lareira emanando calor. Abri os olhos lentamente, tentando descobrir onde eu estava, mas meu olhar não focalizava. Tentei me sentar, mas minha cabeça girava. Ignorei a tontura e girei o corpo, tentando levantar, mas meu equilíbrio estava prejudicado e fui ao chão, me agarrando na primeira coisa que vi; um braço.
O dono dele me colocou gentilmente de volta no sofá-cama:
-Pronto, assim está melhor. – murmurou ele, ajeitando meu travesseiro e as cobertas. – Não está forte ainda, Mellanie. Passou por muita coisa nesses últimos dias, não foi? Agora descanse um pouco. Eu estou cuidando de você.
-Quem... Quem é você? – Sussurei com a voz rouca, tentando enxergar.
- Meu nome é Charles – disse ele, quando finalmente consegui vê-lo. Seus olhos foram a primeira coisa que vi, de um castanho quente, acolhedor e logo percebi porque. Seu cabelo escuro e longo caía sobre seu rosto, encobrindo boa parte dele. O resto de sua face estava coberto por uma barba curta, porém emaranhada, dando-lhe uma impressão de desleixo. Mas havia algo em seus olhos ou no tom de sua voz que me acalmou instantaneamente.
- Eu sou professor, mas no inverno, venho para cá, impedir que jovens inconsequentes morram congelados no frio mortal da montanha, como meu pai fazia. – disse ele, sorrindo tristemente.
Concordei com a cabeça, gemendo com a pontada de dor que este gesto me causava.
- Há quanto tempo eu estou aqui? – Perguntei, observando a fraca luminosidade que entrava pela janela.
- Uns 3 dias – murmurou ele, fazendo as contas – Dois e meio, na verdade.
Encarei o teto de madeira, pensativamente.
- Como você se sente? – perguntou, preocupado.
Meditei na pergunta um momento e respondi, hesitantemente:
- Minha cabeça está doendo... e... eu acho que estou com febre... – ele assentiu, colocando delicadamente a mão em minha testa e franzindo o cenho, preocupado.
- Você deve estar com fome – disse ele, levantando-se – Não comeu nada desde que chegou! Vou esquentar algo. Não pode ficar de barriga vazia.
Assenti e sorri, comparando minha antiga vida a essa nova, que mesmo com a dor, era incomparavelmente nelhor que a outra.
Ele pegou uma panela, colocou-a no fogão e sentou-se numa cadeira da cozinha, observando-me. Após um longo minuto de silêncio constrangedor, ele olhou para a lareira e comentou, sorrindo levemente.
-Então, você é uma escritora?
Levantei a cabeça assustada, imaginando meu caderno verde jogado entre as chamas, usado como lenha. Mas ele estava aberto sobre um banquinho próximo à lareira.
Deitei-me novamente, relaxando um pouco.
- Você leu aquilo? – perguntei com uma careta.
Ele balançou negativamente a cabeça, com um brilho curioso no olhar.
-As páginas estavam molhadas, as palavras sumiram. Coloquei-o lá esperando que secasse, mas acho que não vai adiantar... – concordei, respirando aliviada – O que havia lá? Alguma história de romance ou algo assim?
Suspirei tristemente, sentindo meus olhos molhados de lágrimas apenas pela mera lembrança daqueles escritos e murmurei:
- É só a causa de todos os meus problemas.
Ele não entendeu, mas não insistiu no assunto e levantou-se, mexendo lentamente o conteúdo da panela.
-Espero que você goste de sopa – disse ele, rindo quando fiz uma careta de nojo – É só o que temos por aqui... Não se preocupe. Eu cozinho bem!
Sorri levemente com sua risada me contagiando e até me propus a experimentar a sopa, em parte para agradá-lo, mas também por eu estar com muita fome.
Ele deixou o prato cheio sobre a mesa e veio me ajudar a sentar, afofando as almofadas. Puxou uma cadeira e sentou-se ao meu lado, com o prato no colo. Pegou uma colherada de sopa, soprando-a delicadamente. Tentei pegá-la, mas ele desviou, colocando-a diretamente em minha boca. Arregalei ligeiramente os olhos, surpresa por seu ato e pelo gosto da sopa estar bom.
Ele sorriu e perguntou:
- E então? Está comestível?
Sorri fracamente e repliquei:
-Com a fome que eu estou, até uma pedra seria comestível... E estaria deliciosa!
Ele riu, mas parou assustado quando minha mão começou a tremer incontrolavelmente. Segurou-a com força, tentando esquentá-la, mas ela continuava fria como gelo. Ele suspirou e perguntou, tristemente:
-Por que, Mellanie? Por que jogar sua vida pelos ares desse jeito?
Encarei surpresa seus carinhosos olhos castanhos, balbuciando:
-Eu... Não sei bem... Não me lembro... Não fui eu.
- Então quem? – gritou ele, me interrompendo e me assustando com o desespero em sua voz. – Alguém trouxe você aqui e te deixou pra morrer? Eu tentei Mellanie. Quis muito acreditar nisso, mas não! Tudo aponta para o contrário! Por que desistir de tudo desse jeito? – Em seus olhos, odespero mostrava o medo de que eu tivesse me perdido, talvez para sempre.
-Porque nada mais valia a pena! –Gritei, pondo pra fora toda a dor e a melancolia que eu carregava como preciosidades dentro de mim. – Nada mais fazia sentido! Nada me fazia feliz e tudo o que eu tinha eram mentiras!!Minha família sempre foi uma mentira, as pessoas ao  meu redor eram mentiras e as únicas reais eu fiz questão de transformá-las em mentiras também! – Eu chorava convulsivamente, tornando difícil a comunicação, mas agora que eu tinha começado e que finalmente alguém se importava com o que eu dizia, eu iria até o fim. – E então, quando tudo parecia horrível o suficiente, “ela” chegou e destruiu o que me restava de dignidade. Eu admito! Admito que a acolhi e a ouvi como se ela fosse minha única amiga, mas foi o que achei que ela era. Achava que me queria bem, que iria me ajudar e que tudo finalmente ia finalmente ficar bem...
- Shh... Mel... Calma. Está tudo bem agora. Eu estou aqui, cuidando de você. Respira fundo. Isso... Devagar. Desculpe-me. Eu não devia ter gritado daquele jeito. Acalme-se. Tudo vai ficar bem agora. – Ele sussurrava delicadamente, acariciando meu cabelo e me surpreendi como, mesmo à beira da morte, as mentiras ainda eram minha vida. Respirei profundamente, me enchendo de coragem para sussurrar, já sentindo a partida:
-Não, Charles. Já é tarde. Agora é hora de arcar com as consequências. Agora eu vejo... Aní me deu a faca, mas fui eu que afundei-a em meu peito. Chega de mentiras! Assumo sem nenhum orgulho que me matei. E com isso, destruí a chance de conhecer o melhor amigo do mundo. Meu anjo! Meu doce anjo! Mesmo se tivesse toda a eternidade, como poderia retribuir tudo o que fez por mim, em tão pouco tempo?
Ele abaixou a cabeça, tentando conter as lágrimas. Respirou profundamente e me olhou fundo nos olhos, me passando uma paz e uma tranquilidade que tornaram aquele momento muito mais fácil.
- Nós TEMOS a eternidade, meu amor! Estarei sempre ao teu lado. SEMPRE! Basta pensar em mim, e lá estarei.
- Charles...? – Chamei, com a voz cada vez mais fraca.
- Sim, querida? – respondeu-me, docemente, e por um momento pude acreditar no que ele dizia, e me ver junto dele em um paraíso para sempre. E sorri, mantendo essa imagem na minha mente, querendo que este fosse meu último pensamento e ele fosse minha última visão.
-Tenho que ir – murmurei, com as lágrimas escorrendo pela perda do bem mais precioso que eu acabara de ganhar. Lágrimas escorriam também pela face dela, mas ele sorriu, sussurrando:
-Vá em paz, meu anjo.Nos encontraremos logo. Vá em paz!
Eu sorri, fracamente, e fiz o que  ele me pedia...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Artistas

Uma jovem de longos cabelos castanhos estava sentada em frente a uma tela em branco. Ao seu redor, os materiais que a fariam preencher a tela se encontravam espalhados e intocados. Começara cedo a pintar; por volta dos 15 anos já surgiam países inteiros por suas mãos e mentes. Mas agora, quase 6 anos depois, as imagens surgiam raramente, pálidas, sem muito significado e com pouca emoção. Isso a frustrava. Pintar fora seu rumo por muito tempo. Foi o que a manteve viva quando tudo lhe dizia para ir. O que a transformou na mulher que agora era. E agora, após passar a manhã se preparando para isso, encarava a tela irritada. Nada havia lá. Nenhuma possibilidade! Nenhuma cor! Nada. Tentou começar. Quem sabe depois da primeira pincelada, as seguintes se apresentassem.
Pegou hesitantemente o pincel, seu fiel companheiro por tantos anos e molhou-o na tinta azul. Seus dedos tremiam e ela manteve-o na frente da tela, como se tivesse medo de fazer algo permanente. Finalmente, arriscou a primeira pincelada. Saiu mais como um rabisco, devido ao tremor resultado de um nervosismo inesperado. Aumentou-a, transformando um simples risco numa grande linha, dividindo a tela no meio, criando um longo horizonte.
Outras pessoas poderia achar que aquilo não faria muita diferença, mas ela não. Naquele aparentemente simples risco, ela viu.
Viu o céu azul brilhante com algumas nuvens fofas e arroxeadas. O Sol, grande, laranja e brilhante, descia lentamente, se pondo atrás de grandes montanhas esverdeadas. No primeiro plano, erguia-se majestoso castelo, com os muros de pedra cintilando à luz do crepúsculo. Um rio sinuoso corria, passando ao lado do castelo, criando um pequeno lago particular. À esquerda, erguia-se uma imponente floresta, com densas árvores encobrindo seus segredos. Acima do castelo, várias bandeiras de diferentes cores bordadas em ouro erguiam-se, ostentando seus diferentes estandartes dos que lá viviam.
Ela sorriu, dissipando a imagem sem deixa-la ir e encarou a tela semi-branca satisfeita. Misturava as cores empolgada, vibrando de felicidade ao ver seu novo mundo renascendo diante de seus olhos. Era pra isso que ela vivia. Para isso que ela estava ali. Para dar vida a novos mundos. Para trazer a Terra fragmentos do céu.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Maíse - (parte I)

Entrei sorrateiramente em seu quarto, esperando encontrá-la já se recolhendo ou mesmo na inconsciencia do sono, mas Estela estava sentada frente à penteadeira, arrumando-se com esmero. Viu-me pelo espelho e abafou um grito, assustada.
-Por Deus Maíse! Que susto me pregaste! Quereis mandar-me para a cova dias antes de meu casamento?
Reprimi um riso, encantada com sua dramaticidade.
-Perdoai-me, minha irmã. Precisava lhe falar e acreditei que o momento seria oportuno. Mas ao que me parece, estais de saída. Vais encontrá-lo?
Permaneceu em silêncio por alguns instantes, penteando seus longos cabelos caramelos. Por fim, virou-se, sorrindo sonhadoramente:
-Não há com esconder-vos nada, não é? Sim, vou encontrá-lo. Desde que o Rei - abençoada seja sua alma nobre - prometeu-lhe minha mão, Lorde Miles convida-me toda noite para longos passeios à luz do luar. Que homem, minha irmã. Que homem! Nem se me casasse com o próprio rei seria tão feliz quanto serei ao lado de seu sobrinho.
-De fato, tens muita sorte, Estela. Não só se casará com o sobrinho do rei, com a união abençoada pelo próprio monarca, como pareceis feliz ao lado dele. Mas precisas manter os olhos abertos e as janelas fechadas, pois o Lorde tem a fama de manter várias amantes.
Ela soltou um risinho malandro e confessou, maliciosamente:
-Podeis crer que saberei satisfazê-lo. Ele já se mostra bem satisfeito com meus caprichos.
Encarei-a pasma e sussurei:
-Entregou-se a ele antes do casamento?
Ela riu e comentou:
-Ah, minha irmã.Tua inocência me comove. És muito nova ainda, mas se pudesseis vê-lo, certamente entenderias. Não há como resistir à seu charme. Mas isso não vem ao caso. Disse que precisavas falar-me. Pois diga. O que era tão urgente a ponto de precisar ser dito na calada da noite?
Suspirei e sentei-me em sua cama, exausta de repente.
-Margareth disse-me que ouviu o conde a negociar meu casamento - sussurei, contendo as lágrimas.
Estela sorriu, exultante:
-Mas esta é um notícia explendida! Papai negociando teu casamento! Isso é ótimo! E... - ela parou, observando-me por um instante -Apesar disso, não estais feliz. O que lhe aflige?
-O noivo... - mururei.
Ela assentiu com um careta.
-Pobre?
Ri, debochada.
-Por certo que não. É um duque.
Ela olhou-me, surpreendida.
-Isso é ótimo! O que é, então? Desagrada-lhe sua aparencia?
-Não tenho como responder-lhe. Nunca o vi. Mas dizem que é belo.
-Por Deus, minha irmã! És muito exigente! Quem é teu pretendente, afinal? Talvez eu o conheça.
-Duque Jasper de Fieldland. - Respondi num murmurio.
Ela observou-me, pasma.
-O pobre artista que foi à guerra e voltou como general?
-E ganhou um ducado do Rei por ter reconquistado a capital e salvado o príncipe. - completei, relutante.
-Mas ele é um ótimo partido! Não deverias queixar-vos, Maíse!
-Bem o sei. Mas Estela! Ele tem idade para ser meu pai! E todo o seu drama e romantismo de artista que me encantariam, certamente morreram em seu coração após a guerra. Não suportaria conviver com um marido frio e arrogante.
-Oh, minha irmã! - sussurou ela, vindo me abraçar quando as primeiras lágrimas escorreram por minha face. - Não tenha medo. Acaso não confias em nosso pai? Ele jamais casaria-te com quem não a merecesse. E não tens como saber se o duque é mesmo como supões. Como disse, nem o conheces ainda! E quem sabe não será tu quem reavivará a alma artista de Lorde Jasper?
-Tens razão, como sempre. - sorri, enxugando as lágrimas que teimaram em cair. Estela sorriu convencida e entregou-me um lenço. Abracei-a com força e sussurei. - Como poderei viver sem ti? Tens mesmo que ir viver na corte?
Ela desvencilhou-se de meus braços, olhando-me com ternurna.
-Ao menos por um ano ou dois, se tudo correr bem. Mas não te preocupes. Virei visitá-los com frequencia. E temos teu casamento a preparar ainda! Não te livrarás de mim tão cedo!
Rimos juntas por um momento, aproveitando os últimos dias de convivência antes do casamento de minha irmã.
Um barulho na janela fez Estela sorrir.
-É ele! - sussurou, sorridente. [...]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dúvidas, medo e alento...

Isso é o fim?
Ou apenas um novo começo?
Devemos confiar e esperar?
Ou fazer e deixar nossa marca?

Talvez, um dia, seremos apenas uma fraca memória.
Talvez possamos ser um tipo de heróis
para as futuras gerações.

E as pessoas que deixamos para trás?
Será que elas eram mesmos importantes?
Será que nos lembraremos delas daqui a um tempo?
Será que seriam elas que mudariam nossas vidas pra melhor?

Mas se fosse assim, não seria certo que nos encontraremos de novo,
para o futuro ser cumprido?

"O que está predestinado, sempre voltará para nós.
Os que amamos de verdade, nunca serão esquecidos.
Por mais que não existam mais em nossa realidade,
os laços de afeto nos manterão sempre unidos, de um jeito ou de outro.

E toda a confiança criada, todos os segredos compartilhados e as alegrias vividas, terão um novo peso. O da saudade. O da certeza de que, se for pra ser, será. De que se for forte o suficiente, perdurará pelo infinito e nos encontraremos na eternidade.

E as tristezas, as desilusões, os medos, isso tudo será passado. Apenas uma pequena mancha escura em nossa anterioridade. Não como uma coisa ruim, mas como algo inevitável que nos trouxe até aqui. E com o tempo, desaparecerá, sufocada pela alegria e fé que já nos preenchem aos poucos, criando correntes de força poderosa, minando devagar os obstáculos. Não destruindo-os, mas dando-nos forças e confiança para superá-los.

Então, um dia chegaremos lá. Aquilo que, no fundo, todos sonhamos:
A Perfeição!

Assim, poderemos olhar pelos que tanto amamos e auxiliá-los a chegar até nós. Amando e cuidando, com paciência e carinho, todos chegaremos lá!

Agora, é o momento de ir, para que possamos adquirir experiencias e sensações. Mas não se preocupem. Não estaremos longe. Além disso, o reencontro já está marcado.

Até um dia, querida. Nos encontraremos... no Paraíso!"

O Tempo...

O tempo está passando mais rápido?
Ou o medo de que tudo finde
termina por apressá-lo?


Mantendo-nos em tal contradição
que o simples fato de desejar
é como um pedir pra que nunca aconteça...

domingo, 29 de janeiro de 2012

Apenas um Pequeno Conto...

[...]

Então, ela sorriu, surpresa por sua reação diante de um fato tão corriqueiro.
Ele a encarou, sorrindo de volta, feliz por ter deixado-a feliz. Abaixou-se junto dela, sussurrando em seu ouvido:
-A vida é linda, não acha? – ela abaixou a cabeça, claramente discordando, mas sem querer contrariá-lo – Você não acha isso? – indagou ele, surpreso – Uma bola de fogo corre pelos céus todos os dias sem, no entanto queimar ninguém e você não acha a vida bela?
Ela riu, impressionada com a absurda verdade que ele dissera. Então suspirou, lembrando-se da sua história e murmurou, tristemente:
-Meus pais morreram em um incêndio quando eu era bebê. Nunca soube o que é realmente ter alguém que me amasse, que cuidasse de mim de verdade.
Ele a encarou profundamente e disse:
-Sinto muito... Mas o que disse não é verdade!
-É claro que é verdade! – respondeu ela, indignada – Ou vai dizer que meus pais estão vivos em algum lugar? – comentou debochada.
Ele sorriu, correndo os dedos por sua face, tentando acalmá-la e disse, suavemente:
-Essa parte pode ser verdade. Mas nunca esteve sozinha, mesmo quando achava que sim e sempre foi amada, mesmo quando achava que não. Ou vai me dizer depois de todos esses anos que meu trabalho não valeu nada? – ele riu de sua brincadeira, mas ela encarava-o sem entender.
Ele suspirou, feliz por poder lhe revelar tudo e disse, emocionado:
-Eu estive com você esse tempo todo! Cuidei de ti por todos esses anos. Amei-te desde sempre!
Ela encarou-o com lágrimas nos olhos, finalmente reconhecendo-o como o anjo que tantas vezes a ajudara.
Ele sorriu, abraçando-a, feliz por finalmente poder estreitá-la nos braços apesar do pesar pelo fracasso da missão.

[...]

domingo, 25 de dezembro de 2011

Mellanie Klark - (parte II)

Depois de finalmente arrumar tudo, me joguei exausto na cadeira da cozinha, apoiando a cabeça com as mãos. O vento uivava lá fora, anunciando que a forte nevasca não cederia tão facilmente. Do lado de dentro, os pequenos sons proporcionavam uma agradável sonolência, que em circunstâncias normais, me arrastariam direto para a cama. Os estalidos da lareira e sua luz bruxuleante, a panela de pressão, chiando e contagiando toda a cabana com o delicioso cheiro de sopa... e Mel.
Era por ela que eu ainda estava acordado, mesmo tarde da noite. Mesmo vendo-a descansar tranquilamente, mesmo ouvindo seus suspiros que quase me enlouqueciam, eu sabia que essa situação poderia mudar completamente, de uma hora para outra. Conhecia os sintomas, sabia que não seria assim tão fácil. Fui treinado para isso. Mas diante dela, minha mente virava uma grande confusão e não conseguia pensar em nada, a não ser nela. Em seus olhos, seu cabelo, seus lábios, tão doce...
Respirei fundo e me levantei, tentando dissipar sua imagem de minha mente, tentando pensar em coisas mais lógicas e práticas. Como na comida, que antes duraria cerca de um mês, prazo previsto para a re-abertura da montanha, agora com duas pessoas duraria, em média, 15 dias. E a comunicação estava cortada, o que significava que se algo de mais grave acontecesse com ela, não haveria nada a ser feito. Olhei ao redor, procurando desesperadamente algo pra fazer e vi uma mochila vermelha encostada junto à porta, ao lado das roupas molhadas de Mel.
Não me lembrava de tê-la visto, mas na verdade, me lembrava de pouca coisa do dia de hoje, já que desde que a vi, toda a minha atenção estava voltada para ela. Peguei-a cuidadosamente e coloquei-a em cima da mesa, analisando-a. Uma parte de mim dizia que eu não deveria abri-la, que o que havia lá não me interessava ou mesmo que talvez eu pudesse não gostar do que estivesse lá. A outra, mais prática e racional (e mais lógica, certamente), dizia que qualquer informação extra seria útil para ajuda-la. Preferindo o lado prático, abri o zíper maior, esperando encontrar uma agenda, um celular, algo que me dissesse por que ela estava aqui, e se havia alguém que eu poderia avisar.
Dentro da bolsa, apenas um caderno universitário de capa verde, e uma garrafa de água pela metade. Retirei cuidadosamente o caderno, decepcionando-me imediatamente ao perceber que ele estava completamente inutilizável. Suas páginas molhadas e os escritos a lápis se tornaram ilegíveis. Revirei cuidadosamente suas folhas, tentando imaginar o que havia lá. Não parecia um caderno escolar, nem um diário ou uma agenda. Os escritos seguiam constantes, sem pausas, como... Como um livro! Levantei-me animado, lembrando-me de minha juventude, quando sonhava e escrever. Coloquei o caderno ao lado da lareira, esperando que ele secasse. Sentei-me por um momento ao lado de Mel no sofá, ajeitando delicadamente os cobertores, assegurando que ela estava quente. Ela soltou um gemido abafado, fazendo careta, tendo pesadelos. Passei a mão em sua face, tentando acalmá-la e senti sua pele quente. Era difícil saber devido à proximidade da lareira, mas eu não descartava a possibilidade de uma febre.
Voltei à mesa, abrindo o zíper menor da mochila. Lá dentro, uma sacolinha de plástico protegera um MP4 preto, com um adesivo de caveira colado atrás e uma carteira, também preta. Deixei o MP4 de lado, analisando a carteira. Dentro dela, muitas notas e 50, vários cartões e carteirinhas e algumas fotos. Puxei delicadamente seu cartão de identidade e sorri, murmurando seu nome.
-Mellanie Klark...
Seu nome fluiu fácil por meus lábios... Natural... Como se já o tivesse pronunciado várias e várias vezes, apesar de ter certeza de que nunca o havia ouvido antes. Procurei alguma outra informação, mas isso era tudo o que havia de relevante na carteira. O resto eram cartões de crédito, carteirinhas de clubes e cartões de lojas caríssimas. Apesar da clara riqueza, não conseguia imaginá-la usando aquilo tudo. Indo ao shopping gastando milhares em roupas inúteis. Era como se fizesse de tudo pra esconder sua condição financeira. Suas roupas sem marca e o caderno provavam isso. Sua família podia ser rica, mas ela não se importava com isso.
Peguei o MP4, sorrindo ao ver várias das minhas músicas preferidas na lista de mais tocadas. Recostei-me na cadeira, colocando a última música ouvida para tocar e suspirando tristemente ao perceber qual era. O violão suave e a voz rouca de Kurt Cobain contagiaram o ambiente com “Where did you sleep last night”, do Nirvana. Deixei o aparelho em cima da mesa e me deitei ao lado de Mellanie, cantando baixinho a música que expressava exatamente o que estava acontecendo.