Respirou profundamente após alguns rápidos, porém valiosos minutos
de meditação. Sorriu, sentindo-se recuperada da longa caminhada. Correu as mãos
pelos longos cabelos encaracolados, prendendo-os num simples e elegante rabo de
cavalo. Levantou-se lentamente, ainda meio anestesiada pelo mundo à sua frente
e, juntando suas coisas, despediu-se solenemente do belo coreto.
Subiu a curta estradinha íngreme que levava da porteira à porta de
sua casa, de onde pode ouvir uma animada música italiana tocando na rádio, com
Jared cantando-a com sua voz grave e melodiosa. O doce aroma do molho de tomate
no fogão não deixava dúvidas quanto ao cardápio do almoço.
Abriu silenciosamente a porta, segurando o riso ao ver seu amor na
bancada de chapéu de chef e avental, cortando tomates, distraído. Eloíse
colocou a bolsa sobre o sofá e caminhou silenciosamente até o marido. Esperou
ele largar a faca e tapou-lhe os olhos, numa antiga brincadeira clichê dos
dois.
-Amore mio! – Exclamou o chef, virando-se sorridente e passando as
mãos pela cintura da esposa, puxando-a para si. Ela não perdeu tempo, acariciando-lhe
a nuca e içando-se para beijá-lo.
-Buon giorno, anjo. – murmurou ela sorrindo. – O que temos para
mangiare hoje? – Eloíse desceu a mão lentamente pelo peito do marido e
esticou-se pegando uma taça de vinho na bancada e bebendo-lhe um gole.
-Maccheroni di Járed, mia bella. Má non è pronto ainda, capisce?
Eloíse encarou-o séria por um curto instante e então desatou a rir
da tentativa fajuta de sotaque italiano do amado. Ele retirou a taça da mão
dela e, com um sorriso que a derretia toda, pegou-a no colo enquanto ela ria e
divertia-se pedindo para ele colocá-la no chão. Ele caminhou decidido até o
quarto onde jogou-a carinhosamente na cama, imobilizando-a com uma das mãos e
fazendo cócegas com a outra na sua garota, que meio ria, meio chorava de rir,
implorando para que ele parasse. Ele só o fez quando suas barrigas já estavam
doendo de tanto rir e, depois de recuperar o fôlego, beijou-a docemente nos
lábios.
-Posso saber por que motivo fui assim tão covardemente agredida e
tão divinamente recompensada?
Ele riu e teve que se concentrar para voltar ao personagem.
-La ragazza estava zombando de mia italianicidade e questionando il
maccheroni del chef. Questo è imperdonabile! Merece o pior dos castigos...
Amore! HUAHUAHUA!
Ela revirou os olhos, levantando-se.
-Certo, certo. Perdona, chef. Ma, olha, io vou tomar banho... –
segurou o riso ao ver o olhar malicioso do marido – Nem pense nisso, seu
italianozinho safado! Io sono una donna casada, capisce? E enquanto eu vou lá,
por que não procura mio marito por ai? Ele deve ter se perdido... ou acho que
superou o lance do ciúme pra deixar a esposa sozinha com um italiano tão
prestativo... – disse provocante, indo para o banheiro, rindo ao ver a
expressão do homem à sua frente, que franzia o cenho como que tentando se lembrar
onde teria visto o Sr. Tielo.
-Io posso procurar teu marito lá pelas bandas da panela de molho. É
aquele professorzão alto, bonito, inteligente, gostoso...
-Isso! Esse mesmo! – gritou Eloíse do banheiro. – Pode, por favor,
trazê-lo de volta? É que eu estou com saudade, sabe?
- Non se preocupe, signora! Tuo marito estará esperando per te na
mesa em 10 minutos. Per favore, non se atrase, bella.
Eloíse sorriu, amando sua vida e tudo o que fazia parte dela,
especialmente aquele homem que tanto lhe amava de volta.
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