A tarde já estava no fim quando ouvi latidos de um cachorro ao longe. Estranhei. Naquela região da montanha não haviam muitos visitantes, ainda mais agora que a entrada estava proibida devido à nevasca. Abri uma pequena fresta da porta da cabana que nessa época costumava chamar de “lar”. O vento frio fustigou meu rosto, deixando pequenos cristais de gelo grudados em minha barba e em meu cabelo. Fechei a porta e corri pegar os casacos térmicos e kits de primeiros socorros, guardados para alguma eventual emergência. Algo estava terrivelmente errado. Eu sentia isso.
Estava quase tudo pronto quando ouvi a porta ser arranhada. Abri-a rapidamente e, junto à soleira da porta estava um pequeno Terrier ganindo de medo e de frio. Acariciei-o e por um instante ele pareceu lutar contra o instinto de se proteger do frio. Repentinamente, como se acabasse de tomar uma decisão, levantou-se e correu na direção da trilha que levava ao topo da montanha. Fechei a porta atrás de mim e fui atrás do pequeno.
Ele corria desenfreadamente, não parando por nada, mesmo estando claramente no fim de suas forças. Depois de uma longa hora de trilha, chegamos à uma clareira pouco abaixo do topo, com os pinheiros chacoalhando perigosamente seus cristais de gelo. O Terrier parou em baixo de um deles e começou a escavar a neve, tentando desenterrar algo. Percebendo o que acontecia, corri para ajuda-lo. Embaixo de meio metro de neve estava uma garota com cerca de 17 anos, apenas de jeans e camiseta.
Desesperado, puxei-a para o meu colo, envolvendo-a com alguns casacos extras. Ela era linda! Mesmo molhada, suja e quase congelando havia algo nela que me atraia de maneira irresistível. Apavorado, peguei seu pulso, tentando sentir seus batimentos. Eles estavam lá... fracos, porém constantes Suspirei aliviado. Eu nem a conhecia mas percebi que não suportaria vê-la morrer. Sentia uma necessidade incontrolável de protege-la, de cuidar dela. Que meus longos 26 anos de solidão finalmente teriam fim.
Sem conter a emoção, beijei-a delicadamente na testa, esperando, com isso, trazê-la de volta à vida. De fato, seus lábios tremeram e seu coração acelerou, pouco, mas perceptivelmente. De repente, senti algo agarrando minha blusa. Afastei-me, assustado e percebi que era ela. Em seus belos olhos castanhos havia apenas o medo, de intensidade tal que beirava a loucura.
-Piedade!- sussurrou, quase histérica. – Pelo amor do Senhor, me ajude. Por favor. Eu lhe imploro! Não me deixe morrer assim! Por favor!
-Shh... Calma... Shh... Fique calma.- tranquilizei-a – Está tudo bem. Eu vou te ajudar. Você vai ficar bem. Eu prometo! Não se preocupe. A propósito, qual seu nome?
Ela me encarou por alguns instantes, como que tentando entender o que eu dizia. Depois de um tempo, murmurou:
-Mel...
E desmaiou.
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